Do Kaftano ao Redingote: o Estilo de Vestir dos Moradores do Palácio Dolmabahçe e a Moda do Palácio
À beira do Estreito de Istambul, onde o mármore branco encontra as águas azuis, o Palácio Dolmabahçe ergue-se não apenas como uma maravilha arquitetônica, mas também como a forma de vida de uma era gravada na pedra. Ao entrar pelas majestosas portas do palácio, aquela atmosfera que gira a cabeça é, na verdade, a história da transformação de um império. Essa mudança não se mostrou apenas em decorações nas paredes ou móveis, mas também nas roupas dos habitantes do palácio. A transição, na metade do século XIX, do austero e introvertido Topkapi para o mundo exterior iluminado de Dolmabahçe trouxe uma revolução de estilo radical que vai do kaftan tradicional ao redingote moderno. Hoje, ao ouvir os sussurros do passado sob os candelabros de cristal, seguimos a moda, as telas e a estética da época.
O Espelho do Século XIX: Estética e Moda no Palácio
O século XIX marcou um período de transformação profunda para o Império Otomano, impulsionado pelo crescente contato e influência do Ocidente. A construção do Palácio Dolmabahçe, sob o reinado do Sultão Abdülmecid, simbolizou esse desejo por uma “nova vida” e uma “nova ordem”. Essa busca por modernização permeou todas as esferas da vida palaciana, desde as cerimônias e a etiqueta à mesa até, crucialmente, o vestuário. O kaftan tradicional, outrora onipresente, cedeu espaço a roupas inspiradas na moda europeia, adaptadas ao gosto e às sensibilidades otomanas. A moda, portanto, transcendeu a mera função de cobrir o corpo, tornando-se uma poderosa ferramenta para projetar uma imagem moderna do império para o mundo. Os ventos da mudança sopraram pelos corredores do palácio, onde os tecidos de seda sussurravam histórias de encontros entre o espírito do Oriente e as linhas precisas do Ocidente. Um exemplo notável é a transformação das sedas oferecidas pela Rainha Vitória a Abdülaziz em novas vestimentas pelos alfaiates do palácio, ilustrando a rápida disseminação da influência ocidental.
Do Tradicional ao Moderno: do Kaftan ao Setre e ao Pantalon
Ao longo dos séculos, o kaftan, símbolo de poder dos sultões e estadistas otomanos, confeccionado em tecidos ricos como seda, caxemira ou bordados em fios prateados, gradualmente deu lugar, no século XIX, a uma silhueta mais funcional e moderna. Essa transformação, que começou timidamente com o Sultão II. Mahmud (reinou de 1808 a 1839) e atingiu seu ápice sob os reinados de Abdülmecid (1839-1861) e Abdülaziz (1861-1876) no Palácio Dolmabahçe, não representou uma rejeição abrupta das tradições, mas sim uma adaptação pragmática às exigências da época.
A Despedida Glamurosa do Kaftan e Novas Buscas
Os kaftans, que tradicionalmente não delineavam as curvas do corpo e eram usados em várias camadas com designs imponentes, foram progressivamente adaptados para formas mais ajustadas. Mesmo quando o harém adotava casacos e calças no estilo ocidental, a qualidade dos tecidos e a habilidade artesanal permaneciam inabaláveis. Nesta fase de transição, casacos fechados com gola alta, conhecidos como “İstanbulin”, tornaram-se comuns tanto na burocracia civil quanto na vida palaciana. O İstanbulin serviu como uma ponte estilística entre o entari (uma túnica tradicional otomana) e o redingote moderno. Retratos e gravuras da época frequentemente retratam o Sultão Abdülmecid vestindo İstanbulins, evidenciando sua popularidade.
A Ascensão do Redingote e do Setre e da Calça
Com a inauguração do Palácio Dolmabahçe, o conjunto “setre e pantalon” tornou-se uma escolha predominante entre os moradores do palácio. O Setre, derivado do termo francês “surtout”, era geralmente uma jaqueta longa confeccionada em tecido de caxemira ou pêlo de seda. O Redingote, originário do termo inglês “riding coat” (casaco de montaria), era uma jaqueta ajustada na cintura, com fendas nas costas que se estendiam até o joelho, ideal para atividades equestres.
- Pantolonas (Pantalor): Substituindo o şalvar (calças largas e folgadas), as calças justas ou com barra torneada tornaram-se um símbolo marcante da modernização. Eram normalmente confeccionadas em tecidos de caxemira escuros.
- Setre e Redingote: Jaquetas pretas, azul-marinho ou grafite com gola alta e fechamento frontal tornaram-se trajes formais tanto para o soberano quanto para os funcionários do palácio.
- Fez: O fez, um chapéu de feltro vermelho, substituiu o turbante e tornou-se uma peça central do vestuário masculino, com as franjas variando em cor e formato de acordo com as tendências da moda. Nos anos 1850, as franjas eram mais longas e grossas, enquanto nos anos 1870 tornaram-se mais curtas e finas.
Síntese Oriente-Ocidente: Tecidos e Conceitos Estéticos
A mudança na moda palaciana não se limitou às formas; os materiais também apresentaram uma grande diversidade. A rica tradição têxtil otomana, combinada com as técnicas ocidentais, criou uma síntese magnífica. Os tecidos utilizados na decoração do Palácio Dolmabahçe eram frequentemente repetidos ou semelhantes nos trajes do harém. Nesta época, as sedas e veludos produzidos pela Hereke Fabrica-i Hümayunu (Fábrica Imperial de Tecidos de Hereke) alcançaram um patamar de excelência, competindo com tecidos importados da Europa. A Fábrica de Hereke, fundada em 1843, tornou-se um símbolo da capacidade otomana de produzir tecidos de alta qualidade, combinando técnicas tradicionais com influências europeias.
| Características | Período Clássico (Topkapi) | Período Moderno (Dolmabahçe) |
| Silhueta | Solta, em camadas, que escondem as curvas do corpo | Ajustada ao corpo, linhas nítidas, postura firme |
| Cabeça | Chapéu, turbante, cartola | Fez (vermelho, com franjas) |
| Exterior | Kaftan, pele, aba | Redingote, Setre, İstanbulin, capote |
| Parte inferior | Şalvar, Çakşır | Pantolonas (Pantolona Setre) |
| Calçados | Yemeni, Çedik, Mest | Botas, Calçados, Sapatos |
Escolhas de Tecidos e a Língua das Cores
No vestuário palaciano, o tecido era um indicador crucial de status. No século XIX, os ricos brocados e veludos densos deram lugar a sedas de tecitura mais fina, cetins, tafetás e lãs nobres. Os tecidos de seda trazidos da cidade de Lyon, na França, e os tecidos locais tecidos em Hereke tornaram-se verdadeiras obras de arte nas mãos dos costureiros do palácio. A paleta de cores também sofreu uma transformação; o gosto clássico otomano, vibrante e multicolorido, cedeu espaço a tons mais pastéis, azuis escuros, bordô e pretos. No entanto, para as roupas das mulheres do palácio, cores vivas como rosa, azul e lilás, bem como delicados detalhes de renda, permaneceram presentes.
Elegância e Transformação nas Roupas das Mulheres do Palácio
A mudança notável nas roupas masculinas contrastou com uma transição mais suave e estética nas roupas femininas. As moradoras do harém acompanhavam de perto a moda de Paris, mas a harmonizavam com a privacidade e a elegância otomanas. As chamadas “Ferahî” — exteriores semelhantes à ferace (um tipo de manto), porém mais ornamentados — ganharam destaque na moda de rua. Dentro das dependências do palácio, peças com corte europeizado, com corsagens e saias volumosas, eram usadas junto com trajes tradicionais, como o şalvar e a tríade de saias. Em especial, a tradição do Bindallı (um vestido bordado tradicionalmente usado em casamentos) atingiu o auge com a técnica de bordado de fios cristalizados. As mulheres passaram a preferir o véu ou xale de “novo uso” como cobertura, complementando a elegância com tecidos translúcidos e finos. Retratos da Valide Sultan Pertevniyal (mãe do Sultão Abdülaziz) exibem véus bordados que se destacam como detalhes importantes, refletindo a elegância da época.
Uma Jornada de Moda pelos Corredores de Dolmabahçe
Ao visitar o Palácio Dolmabahçe hoje, as roupas expostas nas vitrines ou retratadas em quadros contam uma história silenciosa. O luxo do redingote do sultão revela tanto o poder do império quanto o desejo de se assemelhar a um soberano ocidental. Nos vestidos de seda da Valide Sultan, percebe-se como a moda de Paris é reinterpretada no coração de Istambul. Essas roupas transcendem a mera condição de tecidos e fios; são evidências tangíveis das tensões da modernização do império, da busca estética e da riqueza cultural. Embora os ecos nos salões altos do palácio não ressoem mais, a moda, a estética e a elegância daquela era continuam a viver na alma de Dolmabahçe. Ao olharmos pela janela de 2026, compreendemos ainda mais o quão valioso e original é esse encontro de estilos.
Em suma, a moda no Palácio Dolmabahçe representa uma fascinante fusão entre o Oriente e o Ocidente, refletindo as transformações sociais, políticas e culturais do Império Otomano no século XIX. Do kaftan tradicional ao redingote moderno, cada peça de vestuário conta uma história de adaptação, inovação e elegância, que continua a inspirar e encantar os visitantes do palácio até os dias de hoje. A preservação e o estudo dessas vestimentas são essenciais para compreendermos a complexa identidade otomana e a sua relação com o mundo exterior.
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